Sem Destino
Rua Aurora. Centro velho de São Paulo. Demolição. E agora, uma obra grande. Talvez uma das últimas da região, já saturada pelo mercado imobilário. Dia desses apareceu um vira-latas, faminto. Os peões da obra o adotaram. Era o mascote, o xodó. A lembrança vaga da família de alguns que estavam longe dos seus. Traz um pouco de aconchego àquele ambiente tão inóspito de trabalho. Alguns meses se passam. Um a um, os trabalhadores vão voltando a suas casas. Menos um, que já não tem família nem destino. Ele, tal qual o cão, vai para onde o destino o levar.
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 13h44
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Apetite
Era um novo homem. Desde o dia em que entrara naquela igreja, todos os seus pecados haviam sido lavados. O arrependimento tomara conta de sua alma, sua mente. Nada mais de tocar crianças. Abandonara inclusive o álcool, que era o maior responsável pelos seus atos impuros. Às vezes, a carne pregava-lhe peças. Então se aliviava como podia, sozinho. Mas não era sua culpa. Era culpa daquelas roupas tão pequenas, naqueles corpos tão jovens e tenros.
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 14h36
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Cara Legal
Era a primeira vez que ele batia em sua bunda durante uma transa. Ficou surpresa. Ele fazi o tipo cara legal. E fora um tapa com gosto. Foi inevitável não vir um sorriso no seu rosto . Outro tapa: "Quem diria? Um cara tão comportado". Até aquele momento nunca havia falado um palavrão na sua frente. "Talvez fosse o vinho que beberam no jantar" - pensava. Agora era ela que pedia para ele bater. Pedidos respeitados. Os pedidos continuavam. As mãos dele se alternavam nas bandas de sua bunda. Havia certa dor, mas ela sentia que incrivelmente suportava e até gostava. Em seus pensamentos: "Quem diria? Tão certinho". Gozo.
ZeRo Rosa
Escrito por ZeRo S/A às 15h47
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Poeira
Ao passar nas ruas, sente o cheiro do cimento, seco. Poeira seca goela adentro. Há dias não chove na cidade. Gostaria que a chuva que teve, um dia, dentro de si, molhasse um pouco a terra. Gostaria de conseguir chorar. Mas desaprendeu há muito. Numa época longínqua em que parou de acreditar nas pessoas. Parou de se indignar diante de injustiças. Parou de se comover ao ver um menino dormir na rua. Não se choca mais ao ver meninas seduzindo adultos. Gostaria de saber onde foi que se perdeu. Pois agora, só o ar seco o incomoda. Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 15h55
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Importância
Não importava o fato de seu relacionamento ter mais de um ano e ela não saber o sobrenome dele. Não se importava de não ter a mínima idéia do local onde ele trabalhava e nem da sua profissão. Um negócio de caminhão. Não tinha a mínima importância de nunca ter ido à casa dele. Aliás, ela nem sabia onde ele morava realmente. É para os lados da Zona Leste. Também não se importava de ele aparecer na casa dela em horários “alternativos, nem de ser chamada de otária pelos parentes e amigos por aceitar uma situação dessa. Somente o que tinha importância é que ele diz que a ama; a promessa dele de que irá alugar uma casa para ficarem juntos para sempre. Os dois e o fruto do amor deles, que fora concebido há seis meses.
Toda mulher já nasce pra morrer de amor...
ZeRo S/A
Escrito por ZeRo S/A às 23h30
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Agora Vai
Trancou a porta, movimento ainda novo pra ele. Olhou outra vez as chaves da casa, nas mãos. Movimento que pensou jamais repetir. Pensou na faculdade, que iria retomar. O curso de desenho, será que não tinha perdido a mão? Tanta coisa a fazer, tudo tinha estado parado. Um ano inteiro, congelado. Um ano nas mãos de vários especialistas. Neurologista, fisioterapeuta, psicólogo, entre outros. Quase tinha dado perda total no corpo, junto com o carro. Estava de volta à vida. À noite, os amigos passam em casa, querem comemorar. Levam abraços, cervejas e petiscos. Tinha decidido não mais beber. Mas ora, bolas, tinha que comemorar. Só uma cerveja não pode fazer mal pra ninguém
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 15h42
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Sem Querer, Querendo
Um sorriso débil no rosto. Um sorriso inocente, pra quem não o conhece. E que esconde suas reais intenções. Ele é do tipo que já nasceu ruim. Do tipo que quando era criança, botava fogo em rabo de gato só pra ver o bicho sofrer. Agora ele cresceu, seu foco mudou. Trabalha como enfermeiro em um hospital de periferia. Daqueles onde não se investigam os óbitos. Diverte-se infligindo dor. E faz parecer inevitável. Diante dos outros, se controla. Mas sozinho, se refestela. Como agora. Acaba de chegar uma garota que tentou o suicídio. Com seus botões, ele pensa em fazê-la realmente desejar ter conseguido.
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 23h31
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Amor Colegial
Foram meses, pensando. Meses, pesando. Ela era espetacular. Inteligente. Até um pouco demais. Nem precisava, sendo tão linda e tão gostosa. Suava frio só de entrar naquela sala, pra dar aula de Física. Seus olhos se cruzavam o tempo todo. E quando entregava trabalhos, ela sempre dizia o quanto o perfume dele era bom, o quanto seus olhos verdes eram lindos. Antes ainda pensava em sua família, em casa. Mas ultimamente, só pensava naquela boca, que sorria tão convidativa. Naquele corpo, e no quanto seria bom tê-lo apenas uma vez. Até que aconteceu. E aconteceu de novo, e de novo. Até que sua vida virou ao avesso, e agora ele estava sendo preso, por se “aproveitar” de uma menor. Com o agravante de que ela era sua aluna. Ela havia mentido a idade. E talvez, no calor do desejo, ele tivesse preferido acreditar.
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 14h26
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Deus Porra Nenhuma!
Caravana para uma cidade do interior de São Paulo. Mais ou menos 150 km. Cinco carros. Rave. A festa começa às 22h e não tem hora para terminar. No meio da galera, quatro identidades falsas. Meninos e meninas. Todos chegam turbinados ao local. Mais de doze horas de movimentos corporais frenéticos ao ritmo de música eletrônica. Drogas sintéticas, álcool, sexo promíscuo. Volta para casa. Exaustão, mas todos muito felizes. Um dos motoristas dorme ao volante. Cinco corpos deformados e ensangüentados debaixo da traseira de um caminhão. No velório, muito amigos, muito familiares e muito pranto. Pais desconsolados. Conversa de velório: Tão jovens, mas Deus sabe o que faz. / Deus? Deus porra nenhuma. Essa molecada enche o rabo de "tóchico", faz merda e agora Deus é culpado. Pára com isso.
ZeRo S/A
Escrito por ZeRo S/A às 17h20
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Pare
Sempre agitado. Dorme pouco. De casa para o trabalho e vice-versa. Pouca diversão. Um corre-corre alucinado. É preciso ganhar a vida. Pouco tempo para a família. Pouco tempo para ele mesmo. Algumas doenças decorrentes do estresse. A velocidade e o ritmo acelerado lhe causam certo prazer. Repudia as pessoas mais “lentas”. Sempre chegando em cima da hora aos compromissos, por fazer várias coisas ao mesmo tempo. Mas nunca se atrasava. Vinte quatro horas diárias era muito pouco para ele. É hora do almoço, engole a comida sem mastigar. Consulta o relógio inúmeras vezes. Paga a conta do restaurante. Irrita-se com a morosidade de quem o cobra. Segue apressado para a empresa. Muitas tarefas o esperam. Semáforo fechado para pedestres. Se eu correr, consigo atravessar. Não consegue. Um coletivo guiado por um motorista apressado o atinge. Logo em seguida o homenzinho verde acende. Sinal vermelho para a vida. Toda a pressa se finda.
ZeRo S/A
Escrito por ZeRo S/A às 00h01
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Funcionário do Mês
A primeira vez foi sem querer. Um pequeno orifício justo no provador feminino. E ele se deliciou com uma simples troca de blusa. Depois ele providenciou que sua descoberta acidental não fosse percebida por mais ninguém. E a cada cliente que entrava era uma punheta bem batida. Ah, ele ficava horas no estoque, sem reclamar. O gerente estava contente. Até que enfim um funcionário daquele setor, que não tinha aquelas idéias chatas de mudar de cargo, subir na vida.
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 01h26
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Olhos
Daqui, de minha varanda, eu via a chuva chegar, de mansinho. Pegando os transeuntes de surpresa. Pessoas arrumadas, indo para o trabalho. Meninas em flor, indo encontrar seus meninos. Ou meninas, não sei. Via as mangas verdes, tornando-se maduras, prontas para serem mordidas. Via os pássaros, de passagem, fazendo arruaça. Via o bêbado incomodando no boteco do lado, desejando feliz natal em pleno janeiro. Via os amigos chegando, beijos e abraços nos lábios, sorrindo. Hoje não vejo nada. Só ouço e lembro. E espero que o doutor me diga o que eu tenho. E quando voltarei a ver novamente. E espero. E espero...
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 01h01
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O Tempo Passa
Ela tem um rosto pouco sutil. A maquiagem, que ainda ajuda a disfarçar sua idade, reforça algo de grotesco em sua expressão. É um biquinho, como se estivesse falando francês. Dá a impressão de que está sempre se oferecendo para um boquete. Ainda se acha o máximo. Tem bom gosto para perfumes. Mas usa imitações, pois o dinheiro que ganha nos botecos de quinta não lhe permitem mais que isso.
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 18h35
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Porta Aberta
A família crescia, progredia. Os fatos desmentiam as probabilidades. Dos cinco filhos, quatro já haviam terminado a faculdade. Tinham o desejo de ver a mãe como rainha, em uma casa maior, em um bairro melhor. Os filhos foram casando, alçando vôo. Teimavam pra que ela mudasse também. Inútil. Ela resistia. O marido que saíra de casa tantos anos atrás, havia prometido voltar quando juntasse dinheiro. E ela tinha esperança. E essa esperança era maior do que tudo. Era mais forte que ela.
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 16h47
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Rua Nua e Crua
Morador de rua não tem nada. Por isso geralmente não tem medo de perder nada. Só a vida. Por isso dormem de dia, em lugares movimentados. Dormir à noite pode ser muito perigoso. Dois deles se desentendem. Briga feia por causa de uma esmola mal-dividida. Um quer tirar a vida do Outro mas não sabe como. Os dias passam e o rancor não sai do coração de Um. Até que se dá conta. No dia seguinte, o Outro chora, sentido, a morte de seu último amigo, um cachorro vira-latas.
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 16h23
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BRASIL, Sudeste, GUARULHOS, JARDIM BANDEIRANTES, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Esportes, Arte e cultura MSN - jrosasil@hotmail.com
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