Amor Materno 13

Quando está sóbria, fato muito raro desde a pré-adolescência, conta sua história para quem quiser ouvir. Álcool, maconha, cocaína e hoje no fundo do poço por causa do crack. Sete filhos espalhados por aí. O primogênito foi concebido em uma festinha regada a muito teor etílico, que terminou em orgia. O caçula, se prostituindo para pagar dívidas de drogas. Este, ela tentou trocar por pedras em uma boca. Levou uma surra dos traficantes. Alguém ficou com a criança. Ela nunca mais voltou para a casa. A rua é o seu lar.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 18h53
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A Maldição 2

Era uma vez, um singelo rapaz, que vivia entre duas facetas. Na maioria das vezes era sapo, e mesmo sendo um romântico relapso, muito mais interessado em assuntos carnais, muitas senhoritas e também senhoras buscavam seus braços e seu leito. De vez em quando, encantado por uma especial dama, tornava-se príncipe. Transfigurava-se, e do sapo asqueroso quase nada lhe restava. Para a sua musa dedicava o seu melhor, porém como uma maldição, quanto mais carinho e afeto lhe dedicava, mais e mais distante ela ficava dele. Por conta desse desencontro amoroso, logo nova transformação acontecia. Seu coração tornava-se frio. Seus braços, pernas e boca cresciam. Pouco a pouco se tornava extremamente arisco, e a qualquer sinal de perigo, fugia furtivamente. Finalmente, era sapo novamente. Pulando de lá para cá, de cá para acolá...

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 13h08
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Amor Materno 12

Quando surgiram, no meio policial, as primeiras notícias sobre o casal de meliantes, todos achavam que se tratava de um disfarce para facilitar as ações. Assaltos à mão armada a lojas de luxo e residências em bairros de classe média alta. Na ocasião em que foram presos, houve troca de tiros com os policiais. A bandida levou um tiro no braço. No hospital, a constatação. Disfarce não havia. A barriga não era falsa. Provavelmente uma gravidez de 5 ou 6 meses.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 16h32
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Amor Materno 11

Quando criança, sua brincadeira predileta era brincar de casinha. Espalhava pelo quarto suas bonecas. Todas suas filhinhas. Outras meninas não podiam tocar nos seus rebentos de pano ou de plástico. Poderiam estragar, quebrar. Somente ela sabia como tratá-los. Na sua família imaginária havia papai, mas sempre estava ausente, trabalhando. Os meninos precisavam ficar o mais distante possível do seu reino, pois achava que eles não sabiam brincar direito. Tinha posse e controle total de tudo. Hoje, mulher feita, esposa e mãe, a sua brincadeira continua a mesma.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 14h31
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Masculinidade

Pai embriagado surra violentamente filho, que o questionara por uma atitude arbitrária. Membros de torcida uniformizada matam a chutes e pauladas garoto de grupo adversário. Policial, fora de serviço, mata a tiros, rapaz em briga de trânsito. Homem assassina ex-mulher, ex-sogra e ex-cunhado, pois ela não quis outra reconciliação. Motorista em alta velocidade, fazendo ultrapassagem e manobras perigosas, provoca acidente fatal; pai de família morre. Adolescente, em competição “quem bebe mais”, entra em coma alcoólico. Rapazes dopam garota, violentam-na, gravam tudo e lançam na internet. Gangue de homofóbicos espanca casal gay. Lutadores de arte-marcial provocam briga em casa noturna para se divertirem. Patrão assedia sexualmente, todos os dias, funcionária que necessita muito do emprego, pois seu salário é o que mantém sua família...  Muitas vezes, muitos homens confundem alhos com bugalhos.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 23h12
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Dama da Tarde

Sempre à tarde. O período vespertino é quando consegue dar uns perdidos sem receio de ser flagrada. E mais uma vez lá está ela em um motel, transando com outro homem, que pouco conhecia. Nesses momentos é que se sente uma mulher plena. Extremamente desejada. É quando consegue resgatar sensações e prazeres que não tem mais no seu casamento. Porém, no intervalo de um homem para outro, o arrependimento e a vergonha. Tudo isso vai contra seus preceitos morais e conceitos de família. E quando isso acontece, a sua faceta de esposa perfeita ressurge. Por pouco tempo, pois com o passar do tempo, sua febril libido não saciada pelo seu ausente marido, a leva a outra cama de motel. A outro homem. A outro fugaz amante.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 23h35
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Big Brother

Não sabia explicar aquela estranha sensação. Sempre caminhou por aquelas ruas, e nunca houve nada de especial. Parou, olhou para trás e nada. Continuou caminhando. Tentou disfarçar serenidade e tentar descobrir o que se passava. Entrou em um prédio qualquer para tentar fugir do que ou quem o perseguia. Ficou ali por quase duas dezenas de minutos sem resultado. Aquele incômodo ficava cada vez mais forte. Perturbado, desabafou com seus botões: Tenho quase certeza de que alguém ou algo está me observando... Não, impossível. É muita pretensão minha...

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 00h11
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Amor Materno 10

Quando criança, ter animais de estimação era sua obsessão. Teve peixes, pássaros, gatos, cachorros, até tartaruga. Sua atenção aos bichos sobrevivia somente até eles chegarem à fase adulta. Exatamente quando deixavam de ser fofinhos filhotes. Depois desta fase, o tratamento e cuidados dos animais ficavam ao encargo dos seus pais, ou eles eram doados a outras crianças. Na adolescência veio um forte desejo de maternidade. Não escondia de ninguém que seu grande sonho era ser mãe. A vida lhe deu três filhos. A caçula, de um ano e meio, neste momento, é a que tem toda a sua atenção e carinho. O menino de 09 anos, sempre da escola, no período matinal, para a casa dos avôs maternos. O mais velho, de 12 anos, quando não está na escola, fica perambulando pelas ruas do bairro.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 17h37
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Revolução

Indignação coletiva. Situação insustentável. Mudanças urgentes são solicitadas. O poder não pode ficar centralizado nas mãos de poucos. O desejo popular deve ser respeitado. Toda a imprensa cobre as manifestações de protesto que ocorrem por todos os cantos. Nas redes sociais é o tema mais comentado. Grupos organizados exigem mudanças imediatas. Lideranças convocam os revoltosos a mostrarem sua insatisfação nas ruas. Alguns grupos mais exaltados tomam atitudes violentas. O clima é extremamente tenso e caótico. Domingo. Mais uma derrota. O treinador e toda sua equipe técnica são demitidos. O desejo popular é satisfeito.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 22h34
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Acaso

Show de mega banda de rock internacional. Fila para a compra de ingressos. Começaram a conversar. Várias coincidências. Conhecidos em comuns. Parentes de ambos que moravam nas mesmas cidades do interior. Viagens para os mesmos lugares. As mesmas baladas das antigas. Empatia imediata. Concordaram que era incrível não terem se conhecido antes. Mas parecia que o destino estava corrigindo aquela falha. Ingressos comprados. Trocaram números de celulares. Combinariam uma cerveja para continuarem o bate-papo. Muita animação. Um deles, no dia seguinte, perdeu o celular, e consequentemente o contato do mais recente grande amigo. Não tivera tempo para passar para o chip. O outro, no mesmo dia do feliz encontro, teve um mal súbito, e foi desta para melhor.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 23h53
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Eterno Retorno

A filha caçula, a mais mimada, há muito tempo o perturbava com o desejo de ter um celular. Não um qualquer, mas um modelo que a maioria das suas amigas tinha. O dinheiro andava curto. Nem as dezenas de horas extras mensais estavam ajudando. A adolescente não compreendia a situação financeira do pai, e brigava com ele, acusando-o de não amá-la, pois a deixava passar vergonha perante as colegas por não ter o tão desejado objeto de consumo. Essa situação o deixava com o coração apertado. Na empresa onde trabalhava, um amigo seu tinha um amigo que arrumava o que quisesse em relação a aparelhos eletrônicos e afins, e por um bom preço, super em conta. Fez a encomenda. Muito barato. Somente 20% do preço de mercado. Um ótimo negócio. A filha, radiante, voltou a amá-lo. Ele era todo contentamento. Achava que tinha cumprido o seu dever paterno. Porém, as mercadorias precisam circular para manter o mercado funcionando. A menina quis ir contra este movimento e se recusou a entregar o celular, mesmo estando sob a mira de uma arma de fogo. Argumentou: Este aparelho é minha vida! Esta ela perdeu. Tiro fatal. Negócios são negócios, e havia outros clientes a serem satisfeito.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 13h22
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Inferno

Fim de ano. Comboios vão chegando. Vindos de todas as partes. Homens, muitas mulheres, jovens e crianças nada inocentes. Lentamente vão ultrapassando as cancelas do estacionamento já lotado. A cada passagem, uma voz mecânica, e cordial repete: Seja bem-vindo. Todos procuram inutilmente uma vaga para estacionar. Impaciência. Buzinas. Irritação. Xingamentos e blasfêmias. Os felizardos que chegaram mais cedo circulam, com dificuldade, pelos corredores lotados de consumidores implacáveis. Esbarrões e cotoveladas.Tanta gente que o ar-condicionado não dá conta. Parece até estar desligado. Em frente às vitrines, muitos se amontoam para apreciarem seus desejos de consumo. Dentro das lojas, mercadorias são disputadas, sem nenhuma cortesia. Gastança sem controle. Cartões de créditos luxuriosos são introduzidos em maquininhas voluptuosas. A cada transação aceita, um gozo duplo e simultâneo. Poucos estão arrependidos de estarem ali. A maioria se farta, se nenhum arrependimento, e vão enchendo suas sacolas de pecados capitais.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 17h28
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Amor Materno 9

Alvoroço na vizinhança. Fumaça. Muita Fumaça. Alguém ligou para o 192. Em frente à casa esfumaçada, uma garotinha de seis anos. Em seus braços um bebê. Lágrimas nos olhos e olhar fixo na porta da residência. Os primeiros vizinhos que se aproximam dela ouvem seu pedido: Acorda minha mãe! Três homens, antes da chegada dos bombeiros, entram na residência. Uma mulher sem consciência estirada no chão. Muita fumaça saindo do colchão. Largado sobre ele, um cachimbo de crack.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 00h45
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Premonição

Parado no semáforo. O motorista, dentro de seu carro do ano, ouvindo músicas de seu artista preferido. Ladrão chega furtivamente e sem dizer nada dá um tiro na sua cabeça. Desperta do pesadelo encharcado de suor. Sua esposa questiona sobre o que aconteceu. Não quis contar: Nada, um sonho bobo. Mas na realidade estava muito impressionado. Era o seu carro, a sua música predileta. Só não conseguiu enxergar o rosto do condutor. Dias depois sua mulher teve o mesmo pesadelo. No mesmo instante resolveu vender o veículo. Este não saiu mais da garagem. Anúncio no jornal e na internet. Em um pouco mais de uma semana fez negócio. Aperto de mão. Alívio. O comprador satisfeito se despediu e partiu. Na esquina parou no farol. Janela estilhaçada por uma bala de revólver. Tumulto. Horror.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 15h59
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Diálogo

Ela gostava muito de conversar. Uma verdadeira Forrest Gump de saias. Em qualquer lugar, em qualquer situação, encontrava um ouvinte ávido por suas histórias. Irradiava simpatia. Extremamente carismática. Praticamente hipnotizava as pessoas, que ficavam ali paradas, ouvindo as milhares de palavras que saiam de sua boca. Porém, toda sua candura acabava, quando o outro interlocutor tentava passar das respostas fáticas a qualquer tipo de narrativa, mesmo que breve. Não tinha paciência para ouvir. Ele era extremamente introspectivo. Não era raro alguém do seu meio de convivência dizer que não tinha a menor idéia de como era a sua voz. Gostava muito de estar com as pessoas, mas só ficava observando. Fazia comentários brevíssimos, ou se limitava a dar risadas. Animadas ou pálidas, conforme o teor da conversa. Em uma viagem de férias eles se encontraram. No avião, sentados um ao lado do outro. Ela falando e ele sorrindo. Um sorriso de poesia. Isso a cativou. Ele era um ouvinte especial.  Ela sentia isso profundamente. Nunca mais pararam de conversar.

ZeRo S/A



Escrito por ZeRo S/A às 16h16
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