A Feijoada

Era considerado. Sujeito-homem, como diziam na favela. Traficava desde os dezesseis. Estava com vinte e cinco. Um veterano. Um sobrevivente nesse meio onde a vida é curta. Tinha um dom. Conseguia enxergar dentro das pessoas. Era bater o olho e pronto. Sabia se podia confiar ou não. Sua cabeça estava a prêmio. Muito dinheiro. Mas confiava no pessoal. Se a confiança minasse, babau! Tinha que ¨subir o gás¨*. Até que soube que Dona Dalva havia feito um contato estranho, com um policial. Mandou chama-la, disse que tinha um presente pra ela. Dona Dalva tinha sido sua ama-de-leite. Confiava, mas precisava olhar dentro dela. Olhou. E viu medo. Viu traição. Não tinha outro jeito. Deu-lhe um beijo e lhe entregou os pertences pra feijoada. Que nunca iria ficar pronta.

*eliminar

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 15h30
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Memória

Viagem de férias. O avião decola. Trajetória perpendicular em busca de estabilidade. Cada vez mais altura. Visão mais ampla da grande metrópole. Madrugada. Nevoeiro mais a poluição. Somente os últimos andares dos grandes edifícios são visíveis. Minha companheira de viagem por cima dos meus ombros poetiza: Os prédios parecem que estão boiando. / É verdade. / Parecem caixotes boiando em um rio. / É verdade. / Caixotes boiando em um rio poluído por espuma. / É verdade. Eu quis fotografar aquela cena. Lembrei-me de que minha câmera estava na mala. No compartimento de cargas. Grande frustração. Queria compartilhar aquela cena com o mundo. Mas, como? Dormi com a imagem na cabeça. Não houve a foto, mas ela continua comigo.

É incrível a nossa história / Sem nenhuma prova concreta /Só palavras, que voam com o vento / Imagens que eu guardo na memória

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 15h27
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Presente de Natal

Gislaine tem nove anos. Mora na rua desde os seis. Fala palavrão, fuma e cheira cola. Às vezes sonha que a mãe vem buscá-la. Sabe que é só um sonho. A mãe morreu. A tia não gostava dela. Por isso fugiu. Apesar de tudo, é feliz. Conhece todo mundo, ninguém a maltrata. O cara da padaria dá café com pão todo dia. Tem a batalha diária pelas outras refeições, mas dificilmente passa fome. No Natal é complicado, porque por incrível que pareça, ela acredita em Papai Noel. Os amigos da rua, mais velhos, tentam dissuadi-la. Mas ela acha que se pedir com força suficiente, uma hora dessas acaba ganhando uma família adotiva legal, de presente. E mais uma vez, as pessoas que passarem embaixo daquele viaduto, na véspera do Natal vão estranhar um pezinho de meia furado, pendurado. Esperando o bom velhinho.

Sonhos são como deuses / Morrem, se não se acredita neles.

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 15h25
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Dia de Festa

Fez drenagem linfática. Depilação completa (uui!). Limpeza de pele. Manicure e pedicure. Lingerie nova, delicadíssima, caríssima. Pediu à amiga com quem dividia o apartamento que fosse dormir fora. Era a noite deles. Um ano de namoro. Ele não iria esquecer. Um ano de namoro. Preparou um jantar divino. Coq au vin. Cá entre nós, frango ao vinho. Para beber, Martini Fiero. Normalmente já era ansiosa. Naquela noite, então, estava em seu limite. 22h10. Calma, menina. 22h30. Entoar um mantra. Hmmmmmmmmm. 22h45. Cadê ele? 23h00. Não iria ligar, ele tinha que se lembrar. 23h59. Só podia ser uma surpresa, ele chegaria à meia-noite em ponto. Finalmente decidiu sentar-se um pouco para esperar melhor. Só um instantinho. Acordou no dia seguinte, com o telefone. Alô, Bia? / Sim./ Desculpe, acabei dormindo.Silêncio. Bia? Silêncio. Bia??

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 15h24
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O Reencontro

Aos 12 anos de idade estudava no colégio C.V. Foi quando conheceu e se apaixonou por E.. Morena, cabelos encaracolados, magra. Sempre na moda. Uma das garotas mais lindas da escola. Não imaginava o vexame que passaria, quando a ela seu amor declarasse. Debochada ela foi. O amor dele desdenhou. Garotos mais velhos ela preferia. Aquela paixão virou motivo de chacota. Até os 15 anos ele sofreu grandes humilhações. Foi quando de escola mudou. Nunca a esqueceu. Primeira paixão. Primeira desilusão de amor. Ficou sem ver E. por 24 anos. Naquele dia no Metrô a encontrou. Ela casou, se separou, tem um filho de 07 anos. Nove quilos acima do peso. Ainda se achando gostosa e vivendo da fama do passado. Roupas não muito apropriadas para as suas medidas superlativas. Soutien com a alça de silicone aparecendo. Como "fita durex" colada nos ombros. Conversa fugaz. Banal. Chata. Ela o elogiou. Está conservado. Apertou seu bíceps e com tom de malícia falou: Faz exercícios? / Sim. / Sou funcionária pública e você? Arquiteto. / Casou? / Não, estou noivo. / Que pena! Brincadeirinha. Qual a idade dela? / 25. / Tão novinha. / Ela prefere homens mais velhos. Por três estações não trocaram mais nenhuma palavra. Ele desceu do trem. Sarcasticamente disse: Tchau, foi um prazer revê-la.

Sei que eu sou bonita e gostosa e sei que você... me olha e me quer. 

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 15h22
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A Causa do Estorvo

Chove torrencialmente. Melhor assim. Seria difícil fazer isso num dia de sol. Pensa. Balança a cabeça como se tentasse novamente tirar aquela idéia da cabeça. Mas ela está lá, irredutível. A chuva diminui. Começa a andar, passos lentos, de quem não tem pressa nenhuma, de quem não se importa com a garoa que cai. Passa pela catraca, quase sendo levado pelas pessoas que estão atrasadas para o trabalho. Mas ele ainda não tem pressa. Queria ser cantor. Mas todo mundo dizia que ele não levava jeito. Acabou trabalhando numa farmácia. Ouvindo queixas de velhas hipocondríacas, vendendo Viagra pra velhos libidinosos, de domingo a domingo. Nada de namoradas, nada de amigos, nada de emoções. Marasmo, inércia, pasmaceira. Esse era o resumo de sua vida. E agora ele iria escrever o parágrafo final. Cansou daquele arremedo de vida. Só mais um instante e tudo estaria acabado. O metrô se aproxima. Ele só precisa soltar o corpo. Soltar o corpo... Soltar o cor...

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 15h20
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FGTS*

D. trabalha há 10 meses no banco FR. Lá que ele conheceu G.. De cara se tornaram camaradas. Estavam sempre agitando a galera do trabalho para umas brejas depois do expediente. Com o tempo D. notou uns olhares diferentes de G. para si. Resolveu ficar na sua. G. é bonitão. Algumas colegas do banco o querem, contudo, ele sempre na dele. Nas baladas, constantemente muito animado, porém, mantém uma certa distância de todos, menos de D. O carro de D. está quebrado. G. lhe dá uma carona. Depois de mais um happy hour. Depois de algumas cervejas. D. tenho algo para lhe dizer. / Demorô. Diz aí, camarada. / Sou gay. / É...normal... G. também se declara apaixonado. D. encara a declaração com se fosse de uma mulher que não lhe interessasse. Só lamenta realmente G. não ser uma mulher. Pois, se fosse, teria uma FGTS*.

Tenho amigo homem, tenho amigo gay, sabe sei lá, sei e não sei, eu gosto é de mulher, eu gosto é de mulher.

*Foda Garantida Toda Semana

ZeRo S/A 



Escrito por ZerooreZ às 15h18
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A Maldição

Era uma vez uma garota que acreditava em príncipe encantado. Em amor à primeira vista também. De tanto acreditar, em uma balada aconteceu. Foi mágico. Foi no primeiro olhar. O rapaz era lindo. Charmoso, inteligente, carinhoso. Na mesma noite descobriu que era gostoso também. No outro dia ele ligou lhe pedindo em namoro. Feliz ela ficou e o pedido aceitou. O tempo passou e em um dia ele lhe disse: Querida, apaixone-se por mim, mas nunca me diga. Ela riu. Querida, não ria. É sério. Nunca me diga, pois posso não acreditar. Estranho ela achou, mas concordou. Dois anos juntos. Comemoração especial. Um filho dele ela queria ter. Noite maravilhosa. Jantar romântico, flores, presentes, a melhor transa que ela já teve. Em casamento ele lhe pediu. Um suspiro ela deu e lhe disse: Amor, sou completamente apaixonada por você. Ele sorriu, lhe abraçou e assim ficaram. Antes de adormecer, uma lágrima do olho esquerdo dele deslizou. Emocionado estava. No meio da madrugada, nu, ele levantou-se da cama. Ela acordou e ainda embriagada de sono perguntou: Aonde vai amor? / Ao banheiro. Ela disse : Volta logo e adormeceu novamente. Às 10h ela levantou-se e disse: Amor, cadê você? Anos se passaram. Na tv, comédias românticas. Na poltrona, a garota vive sentada sempre a dizer: Amor, cadê você?

Sei que você fez os seus castelos / E sonhou ser salva do dragão / Desilusão meu bem / Quando acordou, estava sem ninguém...

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 15h17
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Estorvo

Uma garoa fina cai sobre São Paulo. Segunda-feira chata. O trânsito infernal. Sem novidades. Chego no metrô, tudo parado. A voz plástica no alto-falante informa que "há problemas na linha". Sério??!! Se ele não dissesse eu não saberia, penso com sarcasmo. Ouço impropérios de todos os tipos, pessoas bufando de impaciência e ainda outras, à beira do desespero. Emprego hoje em dia está difícil, apesar das pesquisas alardearem um aumento de n% nas vagas. Mais tarde ficamos sabendo o motivo da confusão. Alguém decidiu dar um fim à própria vida nos trilhos do metrô. Em plena segunda-feira. Daqui a uma semana ninguém mais vai se lembrar disso.

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 15h15
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Olfato

Sempre tive o olfato como o mais sensível dos cinco sentidos. Acordava com o cheiro de café fresco da minha vó. E ninguém escondia manga de mim, nem que estivesse verde. E diferenciar os cheiros se tornou um hobby. É claro que também descobri o lado ruim. Não conseguia dormir enquanto não eliminasse as obras de arte da minha gatinha Nani. Meu nariz me guiava e lá ia eu, limpar embaixo da cama, em cima do guarda roupa ou no forro da casa. Era isso ou passar a noite em claro. Na primeira série tive meu primeiro orgasmo olfativo. Era o perfume da professora. Quando fazíamos roda e por acaso eu segurava a mão dela, um cheiro de felicidade ficava na minha mão. Eu nem queria lavá-la no final do dia. O tempo passou. Um belo dia, num shopping, senti novamente aquele cheiro familiar. Uma garota exuberante na frente de uma loja de perfumes importados fazia demonstração. Era ele! Anäis Anäis! Não, não era anais anais, era ané ané, nome francês, a vendedora me disse. Não quis nem saber, iria proporcionar uma orgia ao meu nariz. Comprei o objeto do meu desejo. Em cinco parcelas, mas comprei.

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 15h14
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Cálculos

Garota fogosa é a C. Corpo de 20 anos, muito atraente aos olhos masculinos. Por que não dizer aos femininos também. E por isso, para não deixar dúvidas, ela sempre diz às amigas: O meu négócio é pintooooo, ou melhor, pintooooossss! Namorar não gosta muito. O lance é ficar. O engraçado, é que em cada ficada, ela se entrega completamente. Paixões verdadeiras. Efêmeras, mas legítimas. Certo dia, começou a sentir umas coisas estranhas. Nas suas contas, atraso de 40 dias. Nunca foi boa em Matemática e isso já lhe causou algumas dores de cabeça. Teste de farmácia. Cor azul. Ela pensou: Agora é avisar o D. que ele será pai. Ele gostou da história. Contou para a família. Para os amigos. Muitos torceram o nariz. Não estava nem aí para a torcida do contra. Sempre foi apaixonado por ela. Foram ao médico. Ele fez questão de acompanhar. Ele estava muito feliz. Eufórico. Tudo correndo bem. Gestação de 105 dias. / O senhor tem certeza? / Sim / Ai Meu Deus! D.,... errei na conta. O pai é o V.!!!!!

Mamãe acho que estou ligeiramente grávida / Mamãe não fique brava a coisa não é tão ruim, lembre-se que um dia você já ficou assim

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 15h13
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A Turma

Todo fim-de-semana tinha festa na casa da Lia. Quando não era aniversário de ninguém da turma da faculdade de Direito, eles inventavam um motivo. Começava na sexta à noite e acabava no domingo à tarde. Todo mundo chapado, prometia parar de beber. Pelo menos até o próximo finde. Só não rolava droga. Kelly dava pra quase todos os meninos. Paulinho pegava quase todas as meninas. Quase todo mundo ficava contente. Menos o Caco, que não conseguia nada. Caco era muito chato. Vivia falando da mãe. Ninguém agüentava. Parece que foi ontem, mas faz tempo. Kelly mudou de lado, agora só fica com menina, Paulinho casou, é fiel. Caco continua tentando em outras rodas, mas ainda é quase virgem. Lúcia, quem diria, parou mesmo de beber. Agora é advogada séria, nenhum cliente imaginaria o que aqueles doces olhos azuis já viram. Jonas abandonou Direito e fez Filosofia. Beto vende incenso no metrô. Mariana teve gêmeos como sempre quis. E Lia toma remédio pra depressão. Conta pras pessoas que todo fim-de-semana tinha festa em sua casa. Ninguém acredita nela.

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 15h08
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Narciso

Descartes era seu nome. Odiava seu pai por isso. Descartes da Silva. Motivo de gozação a cada novo ano escolar. Tinha dificuldades pra fazer amigos. Na verdade, nem gostava das pessoas. Até que entrou pra faculdade de Filosofia. Aprendeu que o mundo era grande, mas sua solidão ainda era maior. Então surgiu a onda dos blogs. Em pouco tempo, o seu era recorde em acessos. Colocava no blog tudo o que aprendia nas aulas, misturado a um pouco de poesia. E algo mágico aconteceu, ele agora tinha centenas de amigos virtuais. Emagreceu a olhos vistos, a família quase não o via à mesa de refeições. Mas à frente do computador, ele era o Poder. Falava bonito, impressionava, podia ser o que quisesse. Citava de cor trechos de obras raras, nomes inimagináveis para a maioria dos reles mortais. E seu ego inflava quando recebia elogios. E convites. Choviam convites para todo o tipo de coisa. Ele recusava, pomposamente. Tinha sempre algo muito importante para fazer. Alguém importante para ver. Às vezes Descartes ficava tão envaidecido que a sensação era a de uma boa transada. Então ele fumava um cigarro, respirava fundo e voltava a entrar no personagem: na rede mundial de computadores ele era Narciso.

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 15h07
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Ladies First

A cada novo stripper, um sussurro crescente, uma euforia maliciosa, espantada atravessa a platéia. Mãos inquietas e corpos febris. A dança não queria parar. Até que uma fenda no solo os engolira. Gemidos agudos, débeis. Gemidos cortantes. Nas trevas, prantos longos, silenciosos, estrangulados pela angústia. Gritos na escuridão. A aurora revela faces pálidas, lívidas, mascaradas de sangue. Nos olhos, o espanto, a visão de uma fuga desesperada por entre paredes que ameaçavam ruir a qualquer momento, esmagando-os. Feridos que penosamente vão sendo extraídos dentre a massa de concreto, ferro retorcido. Cadáveres desfigurados e lamentáveis.
Guarulhos, 28 de agosto de 2004.

Bia Luna



Escrito por ZerooreZ às 15h06
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Só Entende Quem Namora

Quando se tem dezesseis anos não há cansaço pra namorar. Não importa que se tenha aula logo cedo, sempre se dá um jeito de ficar um pouco mais no portão. Tempo de descobertas. Descobre-se que tesão não mata, mas consome. Percebe-se que todo mundo já teve a nossa idade, e parece querer atrapalhar justo na nossa vez. Minha mãe não deixava namorar na sala, tinha que ser no portão. Ela não gostava das caras de cumplicidade na frente dela, achava desrespeito. Eu não me importava, só achava ruim no inverno. Inverno de São Paulo é cruel. No inverno ficava complicado passar dos beijos longos, daqueles que tiravam o fôlego. E tinha a minha vizinha. Toda noite ela levava o cachorro pra passear, bem perto da gente. Até que o cachorro morreu. Deve ter sido de frio. Mas, aí ela inventou de pendurar roupa no quintal da frente. Toda noite, das dez às onze da noite.

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 15h05
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O Rei da Rua

Num sábado qualquer, festa na casa de amigos. Sabia-se magro demais e sentia-se estranho com aquele aparelho. Não podia tirar a não ser na hora de dormir, o pai havia pago uma grana preta. Bebeu pra tomar coragem. Não sabia se devia, mas foi falar com a garota de cabelos flamejantes que sempre o visitava nos seus sonhos e inspirava várias punhetas. Depois de quase meia hora de papo furado, ela cansou de esperar e tascou-lhe um beijo. Sentia sua língua deslizando pelo aparelho, demoradamente. E ela disse no seu ouvido: "Adoro garotos tímidos. E adoro a sensação do aparelho roçando na pele." Depois daquele dia, deixou de ser Frederico, agora era Fred. Era o preferido da gostosa da rua. Seu reinado foi curto, mas não tinha importância, ele soube desfrutar cada momento.

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 15h03
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A Puta, o Corno e o Bebê Chorão

Quarta-feira, 2h30 da madrugada. Acordo com o barulho vindo da casa vizinha. Mais um capítulo repetido da novela A Puta, o Corno e o Bebê Chorão. Sua puta! / Seu corno! / Sua puta! / Seu corno! E ao fundo, o choro de uma criança de 04 anos de idade. Troca de acusações aos berros. Parece que estão dentro do meu quarto. Em determinado momento só consigo prestar atenção no choro da criança. Acho que eles nem percebem que ela está lá presenciando tudo. Fico angustiado com esta probabilidade. A raiva que sinto fazem meus olhos marejarem. 190. Vinte cinco minutos depois, luzes piscando na frente da casa deles. Em minha cabeça antecipo o próximo capítulo da novela. Sono pueril; na cama de casal, dois corpos suados e cansados após um sexo violento. Sinto nojo, mas alguém um dia me disse: “Uma das melhores coisas do casamento é o sexo depois das brigas.” Vomito. Às vezes penso em raptar aquela criança.

Entre tapas e beijos é ódio, é desejo, é sonho, é ternura. Um casal que se ama até mesmo na cama provoca loucuras.

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 15h02
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Bilhete

Era o fim. Dessa vez sabia que era pra valer. Fim dos planos, fim do convênio médico em conjunto. Não se imaginava sem ele, mas na balança do relacionamento o peso das mágoas superava o das alegrias. E naquela manhã, decidiu. Pegou seus livros, seus discos, seus sonhos, jogou tudo na mochila, deixou um bilhete curto e se foi. Durante o percurso até a casa do irmão, lágrimas não foram economizadas. As pessoas passavam e olhavam curiosas. Como se fosse vergonha chorar tão deslavadamente. Mas não tinha vergonha do seu amor. Não tinha vergonha de ter tentado tantas vezes. Sabia que tinha feito o possível. Nas primeiras noites pensou que fosse morrer, mas não morreu. Pensou em fugir pra Austrália, mas não foi. Ficou lambendo a ferida, como fazem as feras, porque seu instinto de sobrevivência não permitia que desistisse. Porque a vida é curta e ainda vale a pena amar. Vale a pena sair sem guarda-chuva de vez em quando. Quem nunca tomou uma chuva de verão não sabe o que está perdendo.

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 15h01
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Palavras Mágicas

Não é o tipo predador. Suas conquistas são duradouras e de qualidade. No mínimo oito mulheres apaixonadas por ele. No mínimo oito mulheres comendo na sua mão. Domingo à tarde. Em uma mesa de bar, cervejas e cinco copos. Seus amigos querem saber o segredo do seu sucesso com o sexo feminino. Uma bateria de perguntas. Mandar flores? Bombons? Dinheiro? Preliminares? Poesia? Assistir com ela todas as comédias românticas em cartaz? Passeio no Shopping? Nada de futebol no domingo? Ouvi-las com paciência? Pau grande? Elogios? Paciência na TPM? Lembrar datas? Presentes fora das datas oficiais? Nada de revistas masculinas? Tratar bem a sogra? Discutir a relação? Falar que a ama, mesmo que na frente dos seus amigos? Etc, etc, etc... Nada disso. Faço cara de sofrimento e digo que sou um homem complicado.

Eu falo tudo que ela gosta de escutar, deve ser por isso que ela vem me procurar.

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 14h56
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Tratamento de Pele

Toda noite era a mesma porcaria. Chegava exausta do trabalho, tomava banho, chazinho relaxante, fazia meditação, ioga. Tudo pra se preparar para o seu melhor parceiro, o sono. E na hora H, nada. Nem um pesar nas pálpebras. Nem uma sonequinha. O pior era quando estava acompanhada. Love pra cá, love pra lá, o cara dormia e ela, nada. No dia seguinte a cara de uva passa indicava que ela tinha odiado a noite. E o cara nem ligava, talvez de arrependimento. No trabalho a chamavam de panda, por causa das olheiras. Daí começou a usar tranqüilizante, faixa preta mesmo. Maravilha. Pelo menos na primeira semana. Depois começou a dormir no banheiro da empresa, o que lhe causou alguns dissabores e advertências. Cansou dessa vida de coruja e agora trabalha à noite. Não tem mais vida social, mas agora dorme o dia inteiro, sem ser incomodada. E toda noite, a caminho do trabalho, exibe sua cútis de pêssego na linha leste-oeste do Metrô.

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 14h54
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As Cartas Não Mentem Jamais

Ambiente místico. Meia luz. Cheiro de incenso. Voz sedutora. Você tem um grande desejo. / Sim. Tenho sim. Ela fala à cartomante sobre seus planos. Paciência! Dentro de três meses será o melhor momento. / Tem certeza? / As cartas não mentem jamais. Família tudo ótimo. No emprego tudo bem. Tomar cuidado com falsas amizades e gente invejosa. Muita saúde... Ela fica feliz com o que a mística lhe revela. Apesar de ser "uma mulher moderna e independente" (esse é seu slogan), quer saber sobre sua vida amorosa. As cartas dizem que, em um futuro muito próximo, surgirá um grande amor. Seus olhos brilham. Em casa, banho de ervas, velas coloridas e orações. “Um grande amor...” Está ansiosa. Uma fatia de bolo de chocolate. Conferência da caixa postal do celular. Três mensagens. Sua melhor amiga. Quero saber tudo o que a cartomante lhe falou. Sua mãe. Você virá almoçar aqui no domingo? “Em um futuro próximo...” O terceiro recado é de M. “Um cara legal com quem saio de vez em quando.” É o que sempre diz desdenhosa às pessoas. Não consegue resgatar a mensagem. Problemas técnicos. Não se preocupa com isso. Olha para as velas coloridas e pensa: “Um grande amor.” Liga para a amiga. Será uma longa conversa. Em um passado recente... Oi! É o M. Tô com saudade! Queria convidar você para jantar comigo hoje... Algo especial. Me liga. Beijo.

Vem, vamos embora que esperar não é saber quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 14h53
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Batman

O trânsito martela minhas engrenagens. Sábado 15h... isso é hora? Isso é dia? Que inferno! Sou um ser humano! No carro da frente, uma criança vestida de Batman. Alheia a tudo isso, me dá um tchau, estatelada no vidro traseiro. Breque, embreagem, acelerador, breque; abro o vidro, respiro, ( Cof ! Cof ! ); poluição; fecho o vidro; acelerador, breque... E o Batman mirim a frente ajeita sua máscara e me provoca com um outro tchau!
Já fui um Batman. Capturei bandidos, desafiei a morte e venci! Aliás, nesta época sempre vencia... Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii “Anda com essa merda!” Acho que puseram criptonita no meu angu! Tô mais pra Mr. Magoo do que pra Super Homem.
O menino acena novamente.
Vai tomar no cu moleque do caralh................!

Marcelo Romano



Escrito por ZerooreZ às 14h52
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Esperando o Busão

Dez minutos de espera. Jd. Bom clima via Pio XII. Carros e pessoas passam. Ele lá. Alguém vem em sua direção. Um cara magro, alto, todo sorridente. E aííííí mano. Firmeza? Tudo certinho? / Tudo certo. / E a galera? Faz mó cara que num veju ninguém. / Tudo certo. O rapaz está entusiasmado. Fala muito alto. E a F., aquela gostosa? Tá pegando ainda? / É... / E o R. acabou se enforcando com aquela piranha da R.? O cara é o mó otário! / É... O rapaz realmente fala bem alto. Os dois são a atração do ponto de ônibus. Platéia de 15, 18 pessoas. Ele olha para os lados. Cabeça baixa. Desconforto. Um tapa nas costas. Diz aí mano. Cê tá meio calado. Já sei...é muié, num é? Sai dessa mané... Num tô criditando que cêtássim por causa de buceta... O rapaz o segura pelo braço. Vamo toma umas breja, que cê melhora na hora. Ele se desespera. Deixa para outra vez grande. Esse é meu ônibus. E entra correndo na primeira porta aberta. Ainda pôde ouvir. Cê mudou de casa, R.? O ônibus parte. Ele suspira aliviado. "Eu heim! De onde saiu aquela figura?!!!" Ele desce dois pontos depois para finalmente pegar o Jd. Bom Clima via Pio XII.

Sai da minha aba, sai pra lá, sem essa de não poder me ver.

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 14h50
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Adrenalina

Nenhum motorista da linha gostava de passar à noite, naquele trecho mal-iluminado em que estavam agora. E no exato momento em que pensava nisso, ele ouviu: "Todo mundo passando a grana que tivé!" Amedrontado, entrega os doze reais que tem no bolso da camisa, e pensa nos trezentos que tem na calça, com destino certo; é a grana do colégio particular das crianças. Ele faz de tudo pra que seus filhos tenham um destino melhor. "Vô pulá a catraca! Se alguém tivé escondeno alguma coisa eu num vô nem avisá, vô metê bala!!!" Ficou branco. Suou frio. Durante sua vida inteira sempre foi um cuzão, mas não ia morrer desse jeito. Não podia se dar ao luxo. Sentado perto da porta levemente entreaberta do ônibus, não pensa duas vezes: se joga contra ela e mergulha na escuridão do matagal em frente. Ouve o zumbido das balas, mas não pôde parar de correr. E corre sem cansar, durante quase duas horas, até chegar em casa, sem fôlego, sem saber como conseguiu.

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 14h49
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Alô!

Sábado. 21h. Sétimo andar. Zona Sul da cidade. Aparelho de som desperdiçando energia elétrica. Mora só. Vive só. As pessoas não gostam dela. Principalmente os homens. Sua melhor amiga sempre ouve isso dela. Aliás, essa sua amiga lhe telefonou 15 minutos atrás lhe convidando para um cinema. Eu, você e seu namorado? / É. / Não tô a fim de segurar vela. / Tá bom. Fique bem! Tchau. Agora ela ouve a música e fica incomodada. Acaba o desperdício. Ansiedade. Impaciência. Na pequena sacada olha a cidade em constante movimento. Olhos marejados; lágrimas deslizam pela sua face. (Trimmm! Trimmm!) Alô. / Alô. / Queria falar com a G. / Não tem ninguém aqui com esse nome. / Desculpe foi engano. Fone no gancho. Puta que pariu! Que merda de vida!!! (Trimmm! Trimmm!) Quem será o corno desta vez? Alô. / Alô. Desculpe o incômodo...ééé que achei sua voz muito bonita e quis ouvi-la de novo... Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele desliga. Coloca lentamente o fone no gancho...segue para varanda... O celular de sua amiga toca. Oi! / Oi! / O convite ainda está de pé?

Alguém sabe o que é, ficar em casa só e chapadão, olhando pela madrugada o poltergeist da televisão?

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 14h48
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Carne Fresca

"A noite vai ser boa, de tudo vai rolar..." Com direito a caras e bocas, o sarado vocalista da banda se esmera na canção de Cláudio Zoli. Na frente da casa, uma fila razoável, sinal de que a noite vai bombar. Ambiente exótico, à meia-luz, corpos se esbarrando pelos corredores. Mãos, pernas, peitos e bundas movem-se na pista de dança. Pelos cantos, farejando, velhos lobos e lobos jovens. Todos famintos. À procura da presa perfeita. Na verdade, nem precisa ser tão perfeita assim. E no final da noite, o que importa é levar algo entre os dentes para a toca. Talvez hoje eu canse de ser uma boa menina, esperando o caçador pra me salvar. Talvez só hoje eu prefira um lobo.

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 14h46
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Programado Para Acordar

PiPiPiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Caramba, já!
Huunnnnnnn
A escova me chama em um ato reflexo. Olhos grudentos pedem pra não abri-los. Apague a luz por favor! A água cai no corpo como uma fonte de energia. Não tem mais jeito. Cafeína, carboidrato e nicotina. Ônibus chacoalha, freia. Opa! tira isso de trás de mim. Enfim.................... o gerente que não dormiu por causa do nenê de 5 meses. O relógio maltrata, bate na cabeça. O stress consome. Vai se fu.. gerente do caralh... Estou ficando louco. Minha enxaqueca. DEEEEEEEEEEEEEEEUS!

- Querido! acorda você está tendo um pesadelo. Hoje é sábado!

Marcelo Romano



Escrito por ZerooreZ às 14h45
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I Love Sugar Kane

I love Sugar Kane, porém I hate Suzanne Ken. Quando bebo aguardente, fico sem saber quem sou. I don’t remember and you? Não me diga que não, por favor. Please, don't tell this to me, certain.. Ao invés disto, somente pense no nosso amor e diga-me veludamente: - Fuck me, my dear! Responderei: - Yes, yes, yes, mother fucker... Aquele barrigudo fodendo a tetuda branquicela estadunidense não me excita. Vídeo pornô é uma bosta. Broxante - Preciso de um pouco mais de empenho - foi o que me disse uma garota depois de 45 minutos de preliminares; dentro de um Uno CS; estacionado em uma rua de um bairro residencial; 1h30 da manhã. Puta que pariu, como é foda agradar mulher metida a besta. I loved it, but the life continues, is not truth? E que assim seja.

I love you Sugar Kane, a-comin' from the rain oh kiss me like a frog, and turn me into flame

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 14h44
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Rodoviária

Era uma manhã como outra qualquer, mas algo dentro de si fez com que levantasse rápido da cama. Eram sete da manhã, ela tinha seis anos. O instinto a fez ver a porta da rua, estava aberta. Saiu sem pensar duas vezes. De longe, viu a silhueta conhecida, tão amada. Não quis gritar, achou que correndo a alcançaria facilmente. Estava errada. Suas pernas curtas, os pés descalços na rua de terra eram obstáculos. Corria rápido, mas a distância só aumentava. Pensou em gritar, mas já não havia fôlego. Até que entendeu tudo. Do alto da ladeira, onde estava, pôde ver a mãe entrando no ônibus diário que deixava aquele povoado esquecido e seguia para a Capital. Estava só. Tentou chorar, mas não conseguia. Estava só...

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 14h36
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Larica

Balada braba de sexta-feira. O mundo gira. A cabeça está inchada, mas existe uma sensação de felicidade. Não sabe como chegou em casa de carro. Irresponsabilidade? O álcool e outras cositas que dão barato não deixam pensar em coisas tão abstratas como essa. Carro na garagem sem nenhum arranhão. Mas foi por pouco. A fechadura da porta parece que diminuiu. Finalmente a porta se abre. Luzes apagadas. Deixa-as assim. Tenta não fazer barulhos para não acordar a família. Segue cambaleante até a cozinha. Tropeça duas vezes. Está com a maior larica. A boca seca. Abre a geladeira em procura de algo para comer. Nada poderia ser melhor do que aquilo. Brilho nos olhos quase fechados. Senta-se à mesa. A primeira colherada é levada a boca que agora está salivante. ARGH! ARGH! Nojo. Asco. Cospe. Quase vomita. Revolta. Raiva. Gordura congelada às vezes fica muito parecida com pudim de leite.

Co’a marvada pinga é que eu me atrapaio...

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 14h35
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Quarta-feira à noite

Ele está na sala assistindo pela TV uma partida de futebol. Jogam o seu time de coração e o arqui-rival. A peleja corre cheia de lances emocionantes. Os jogadores de ambos os times estão inspirados. Jogadas de alto nível. Dribles desconcertantes. Defesas espetaculares. Gols maravilhosos. Tudo perfeito. Ele não consegue parar sentado na poltrona. Quase não pisca... AAAAAIIIIIIII!!!!! Um grito estridente de terror vem do banheiro e corta aquele clima onírico. Ele salta da poltrona e em apenas três passadas largas está em frente ao banheiro. Bate na porta e chama pela sua esposa. Ela não responde e continua a gritar desesperadamente. Ele entra em pânico, imaginando coisas horríveis que estariam acontecendo com sua mulher. Resolve arrombar a porte e o faz. Não consegue crer na cena que lhe é apresentada após o arrombamento. Ela seminua, de pé em cima da privada, enquanto que no chão uma pequena barata, provavelmente um filhote, totalmente tonta, correndo de um lado para outro. Ele ainda meio atônito, retira o chinelo do pé esquerdo, e sem pestanejar esmaga o inseto. Com um pedaço de papel higiênico o pega e joga-o no cesto de lixo. Ela para de gritar e fica soluçando. Olha para ele com ar de ternura. Ele sorri carinhosamente para ela e volta à sala para terminar de assistir o embate futebolístico.

Que culpa a gente tem de ser feliz? Que culpa a gente tem, meu bem?

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 14h33
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Sábado de Manhã

Acorda e levanta-se. Dormira no sofá novamente. Percebe que está só em casa. Ainda está meio sonolento. Ficara assistindo tv até tarde ontem. Vai até o banheiro, faz o seu pipi sagrado do após-despertar. Lava o rosto e escova os dentes. Depois na cozinha, pega leite e uma maçã na geladeira e um pacote de bolacha tipo pão-de-mel no armário. Leva tudo para a sala. Liga a televisão. Programas de calouros, de auditório e de esportes. Morde a maçã, toma um gole de leite e enfia uma bolacha inteira na boca. Na TV é bola na trave, carros derrapando, cavalos saltando, skates voando, etc. Tudo sempre igual. No sofá, pega no sono. No chão, farelos de bolacha, os restos da maçã e leite derramado.

Eu só queria me divertir as paredes me impedem já estou vendo TV como companhia

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 14h31
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Simulação

Conversavam animadamente. Lembranças da viagem à Parati há quatro anos. Riam. Gargalhavam até. Estavam excitados. Emocionados. A vinheta da novela das oito.– Hoje a T... e o V... irão reatar o romance depois de uma briga feia. Não posso perder – disse ela em frenesi. Ele foi tomar banho e se masturbou homenageando uma das garotas das cervejas. Os olhos dela ficaram marejados vendo T... e V... na televisão fazendo amor. Os comerciais. Uma propaganda, com um casal feliz, vendendo roupas, ou talvez carros, ou outro sonho de consumo qualquer. Eles dormiram sem troca de beijos de boa noite.

A televisão me deixou burro, muito burro demais..Agora todas coisas que eu penso me parecem iguais

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 14h30
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Amarelo

Eu estava no carro do meu irmão, no estacionamento de um laboratório de análises clínicas, esperando minha mãe. O meu carro é uns 15 anos mais velho do que o de meu mano. Enquanto esperava, ouvia música e experimentava os óculos escuros de lente amarelas que também pertenciam ao meu irmão. Havia um sol de final de tarde e pelas lentes dos óculos via o mundo com tons amarelados. No rádio em determinado momento tocava Madonna. Não um de seus grandes hits. O mundo amarelo estava muito lindo. Até esquecera que havia tomado outro pé na bunda.

Eu pensei a vida não presta, ela não gosta de mim...

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 14h28
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Teias

Conforme pesquisas de algumas revistas para adolescentes, 75% das mulheres têm medo de insetos, roedores e afins. Eu estou aí, dentro desses números. Mas acho que fiz amizade com uma pequenina aranha que mora no meu banheiro. Assim que percebi a teia de aranha no alto da parede, onde não há azulejo, decidi dar um fim naquela coisa nojenta. Assim que terminasse o banho. Olhei e percebi o que parecia ser uma família, talvez mãe e filha. Afinal é aranha, não "aranho". Era uma maior, coloração mais escura, patas longas, chegava a ser elegante. Outra menor, clarinha, parecia adolescente. Achei curioso, mas no dia seguinte cheguei decidida a destruir a tal teia. Só que a aranha "mais velha" havia sumido. E a partir de então tenho observado todos os dias a pequena aranha sozinha, esperando que ela se vá, pra que eu não tenha participação em mais uma tristeza na sua vida. Tenho a impressão de que ela sofre, espera pela mãe. Ou espera pela morte. E me irmano nessa falta de colo, sem saber o que fazer. Acho que as pessoas que freqüentam minha casa vão me achar desleixada. Preciso recuperar a razão e lavar as paredes.

Ady Cavalcante



Escrito por ZerooreZ às 14h26
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Não vou

Itaquera, segunda-feira. Cinco horas da manhã. O despertador toca e ele acorda. Trabalha como balconista em uma loja de autopeças. O tédio o atinge automaticamente. Está exausto. Não acredita que já é hora de levantar. Trabalhou até ás seis da tarde do sábado. No domingo não teve pique para nada. Estava morrendo de sono. Teve que cancelar o cinema que havia combinado com a namorada. Iriam assistir a uma comédia romântica americana. – Não vou trabalhar hoje! É só trabalho, trabalho, trabalho! – disse para si em voz alta. Jabaquara, oito e meia da manhã, ele chega à loja onde trabalha. É dia de pagamento.

Cinco da manhã ele pega trem lotado direto pro trabalho pra ganhar salário.

ZeRo S/A



Escrito por ZerooreZ às 14h23
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Legalize

Não me importava por ela fumar maconha. Fazia o estilo compreensivo. Depois de uns pegas a garota sofria certa transformação. Ria descontroladamente e de sua boca saia um monte de bobagem. Confesso que ficava ligeiramente irritado, independente de minha sacra compreensão. Nenhuma droga transforma idiotas em gênios. Tinha o lado bom. Vontade de beijar. Ela ficava me beijando sem parar. Beijos de verdade. Aqueles dados com muita vontade, de hálito quente e saliva febril. A maconha deixava sua língua com gosto instigante. Passava o efeito da cannabis e Morfeu vinha possui-la. Eu ficava na vontade.

I just want your extra time and your kiss

ZeRo S/A

 

 

 

Escrito por ZerooreZ às 14h17
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BRASIL, Sudeste, GUARULHOS, JARDIM BANDEIRANTES, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Esportes, Arte e cultura
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