
Correr Pro Mato
De repente uma agonia. Algo muito forte. Parou o carro no acostamento. Desceu sem desligar o rádio. Sem pegar o celular, nem a carteira. Sem acionar o alarme. Foi caminhando. A estrada cortava uma mata. Havia uma leve neblina. Enquanto caminhava despia-se. O que achavam da sua atitude os outros motoristas? Ele não estava nem aí. Ficou nu e continuou caminhando sem destino certo. Só uma coisa passava pela sua cabeça: ser livre. Lembrou do que sua velha vó materna dizia: Quando tô co nelvos à flô da pele, corro pro mato pra esfriá a cabeça. Santo remédio. Decidiu, era isso que faria. Correr para o mato e ser livre. Sensação de euforia. Felicidade. Antes de sujar seus pés de terra, policiais rodoviários o prenderam. Atentado ao pudor. Foi assassinado em uma rebelião acontecida em uma cadeia superlotada.
Eu sou free / Sempre free / Eu sou free demais
ZeRo S/A
Escrito por ZeRo S/A às 00h20
[]
[envie esta mensagem]
|

Divina Comédia
Av. Paulista, sexta-feira, 18h54. Happy hour. Vou me aproximando e percebo que não é uma happy hour de executivos, intelectuais ou artistas. São operários num novo prédio. Provavelmente nunca mais entrarão lá depois da obra concluída. Algo suntuoso, digno da nobreza paulistana. Ou o que sobrou dela. Ouço a animação. Alguém entre eles tem talento com o violão. Toca uma música popular. Depois um samba. Perco a hora e participo, de longe, como penetra, daquela alegria. Como os invejo! Eles provavelmente também não leram A Divina Comédia, como eu que ainda não consegui, mas não sentem falta disso. Estão felizes. E eu sinto saudades do tempo em que era feliz como eles.
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 01h52
[]
[envie esta mensagem]
|