
Esqueceram de Mim
Quatro de fevereiro de 1976. No dia anterior fiquei sabendo que meu pai havia morrido. Acidente automobilístico. Os outros quatro ocupantes do seu fusquinha vermelho também mortos. Indo para o trabalho, um caminhão de frente. Homem bonito era meu pai. Só consegui chorar no velório. Depois de vê-lo. Algodão nas narinas como eu via nos filmes e novelas. Então acreditei na sua morte. Então chorei. E muito. Muita gente. Ele era uma pessoa querida. Afastei-me de todos para curtir minha dor. Em um canto perto da entrada do cemitério sentei. Cabeça nos joelhos. Dormi, desmaiei? Não lembro. Onde está todo mundo? Ninguém conhecido. Cadê minha mãe? Coitadinha, perdeu o papai e agora vai me perder também. Fui para rua e encostei-me em um poste. Começou a chover. Comecei a chorar. Um rapaz me encontrou. Em um bar fiquei a esperar. Lá, minha história contei umas três vezes. Vieram me buscar. Quanto tempo esperei? Uma hora, duas? Não sei. Eu tinha oito anos, um mês e um dia. Deve ser por isso que sempre saio um pouco antes do fim de qualquer evento ou festividade e nunca vou de carona.
Se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho, se hoje canto essa canção o que cantarei depois
ZeRo S/A
Escrito por ZeRo S/A às 23h31
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