
Cara a Cara
Ele ligava todos os dias, às 15h. Pontualmente. Na primeira vez ele ligou por engano. Depois, disse que gostou da minha voz e perguntou se podia ligar de novo. Falei que sim. Ele também tinha uma voz bonita, meio rouca, parecia sempre que havia acabado de acordar. Nos falávamos por quinze, vinte minutos. Amenidades. Com o tempo, nossos papos tornaram-se mais e mais interessantes. Passaram a ser quarenta, cinqüenta minutos. Nunca faltava assunto. Tinha a impressão de que nos conhecíamos de outra vida, tal era a sintonia. Ficava ansiosa quando ele atrasava alguns minutos. Até que combinamos de nos conhecer. Eu iria de branco, ele de azul. Barzinho à meia-luz, música tranqüila, tudo conspirava a nosso favor. Nos olhamos. Nos olhamos. E nada. Nada aconteceu. Não reconheci a pessoa por quem havia me apaixonado. A decepção foi visível. No fim da noite o sentimento que nos unia era o alívio. Durante uma semana não nos falamos. Até que ele ligou de novo. E me deu seu número. Hoje nos falamos com freqüência. A magia continua, mas só rola através do telefone. Somos felizes assim, diferentes das outras pessoas. Pra quê estragar isso?
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 00h22
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Uma Coisa de Cada Vez
Subiu a escada como se estivesse num sonho, algo bem distante. Como se não fosse ela mesma. A placa lá embaixo dizia: “Massagem e Relaxamento / 3º andar “. Uma garota da empresa havia indicado, disse que o homem era bom. Competente e rápido. Era o que ela precisava. E enquanto subia, enumerava todos os argumentos possíveis para justificar o que faria dali a pouco. Estava desempregada, morando de favor na casa da irmã. Tinha tomado todos os cuidados, mas aconteceu. Aconteceu justo com ela. Por quê? Por quê? Não sabia. Também não havia sido fruto de um relacionamento, foi só um lance de pele. Conhecera o cara num barzinho, atração incontrolável. Incontrolável? Estava meio alta, mas lembrou da camisinha. Meu Deus, e se o cara não fosse saudável? Tinha de parar com a paranóia. Tinha de fazer exames, assim que resolvesse “aquilo”. Parou em frente à porta. Ainda não estava certa. Voltaria no dia seguinte. Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 16h27
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