Pôr do Sol
Abriu a porta, entrou. Depositou sobre a mesa da cozinha as sacolas do mercado. Então deu-se conta que havia comprado comida demais. Toda a cozinha estava escrupulosamente limpa. Por absoluta falta de uso. As pequenas violetas davam sinais de que não passariam daquele dia. A samambaia amarelava, agonizante. Tinha a impressão de ouvir seu riso, do banheiro. Correu até lá, esperançoso. Obra de sua cabeça doente e seu coração cheio de saudades. Seu corpo lembrava intensamente da última vez em que fizeram amor. Lembrava do sorriso maroto que ela trazia, enquanto subia nos seus ombros, quando queria alguma coisa. E ele fingia acreditar que ela conseguira na marra. Adoraria sofrer de amnésia, agora. Adoraria não ter tantas lembranças. Boas lembranças. No canto da parede, ao lado do puf que tinha o cheiro dela, uma pilha de revistas femininas que ela deixara pra trás. Como deixara pra trás a história deles. Como milhares de histórias parecidas, ele não entende o que houve. Só sabe que ela não estará mais lá, no futuro, como ele sonhara tantas vezes, ao seu lado, vendo o pôr do sol.
"Saber amar é saber deixar alguém te amar... "
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 23h51
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