Agora Eu Sei
Meu pai era a figura padrão do pai provedor. Quando criança eu não tinha consciência desse termo. Pai era pai e ponto final. Ele chegava do trabalho sempre com um presentinho para mim e minha irmã. Nunca falhava. Dávamos um abraço e um beijo e corríamos para o quarto deixando-o só. Mamãe sempre pedia para ele não largar nada na sala e ir logo tomar banho, pois o jantar já estava pronto. Lembro-me que minha mãe enjoava logo dos móveis de casa e enquanto papai não conseguia grana para trocá-los, ela o perturbava com vários catálogos de propagandas com as escolhas dela. O jeito era trabalhar mais. Até nos finais de semana. Recordo-me que quando havia as trocas, mamãe mudava muito. Só assim para vê-la bem-humorada. Ela chegava até a cantar. Havia jantares especiais e conversavam por horas. E ela deixava papai até beijá-la sem resmungar. Em outras ocasiões era sempre: Só pensa nisso homem. Olha as crianças. Para mim mamãe sempre foi uma bela mulher, mas confesso que adorava ver suas fotos do tempo de solteira. Vinte quilos a menos. Acho que papai também, pois o peguei várias vezes vendo essas fotos. Foi nessa época que foi descoberto que ele tinha uma amante. Todo mundo o recriminou. Ele teve que sair de casa. Eu o odiei. Foi quando ouvi pela primeira a célebre frase Homem nenhum presta mesmo. Eu já era grandinho e queria entender porque ele tinha sacaneado a mamãe e com raiva perguntei: Por quê, pai? Com os olhos marejados e a voz embargada respondeu: Eu não queria...me perdoa...eu só queria me sentir vivo...Na hora não entendi. Hoje sim. Completamente
Agora eu sei e posso lhe contar...
ZeRo S/A
Escrito por ZeRo S/A às 04h24
[]
[envie esta mensagem]
|