Ora Bolas
Viúvo amargo, mal-humorado, mal-amado. Raramente recebia visitas. Sabia-se que ela tinha dois filhos. Vinham às vezes, ficavam pouco. Se as pessoas olhassem bem, veriam eu seus rostos um certo ar de alívio quando iam embora. Todo mundo suspeitava daquele senhor, mas nunca houve certeza. E então, na semana passada, tudo ficou esclarecido. Quando o quitandeiro estranhou que as verduras da semana anterior não haviam sido tocadas, chamou a polícia. Estava morto há muitos dias. Infarto. Encontraram provas irrefutáveis de sua culpa. Estavam em toda a parte. No quarto de empregada, no sótão, na lavanderia, até num antigo poço desativado. Mais de uma centena de bolas. Bolas furadas, rasgadas, cortadas com facão, tesoura. Algumas davam a impressão de terem sido destruídas a dentadas. Ele era o Papa-bolas da rua. Só agora, vinte anos depois, tínhamos absoluta certeza.
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 21h38
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