Missa
Sentia-se estranha ali. Patética, para ser mais exata. Aqueles gestos, murmúrios, as orações decoradas. Todo o ritual. Tudo lhe parecia distante. Esforçava-se para acompanhar a multidão, mas seus movimentos eram descoordenados. Sua atenção desviava-se ao tentar imaginar a vida de cada um que estava ali. Alguns até conhecia de vista. O açougueiro que roubava no peso da carne. O jornaleiro que deixava as adolescentes lerem suas revistas, em troca de olhares indecentes para seus corpos cheios de vigor. A dona de casa que maltratava a doméstica. Ali, a hipocrisia parecia ter até um odor característico. E ela estava se impregnando dele. Pensava em si mesma, tentando controlar o desejo pelo namorado durante a missa.
Ady Cavalcante
Escrito por ZeRo S/A às 20h27
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